GBRJ ONLINE

Terça, 04 de outubro de 2022
MENU

Coluna

O Enterro das Tragédias

O Luto e suas diversas facetas

208
Imagem de capa
A-
A+
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Enterrar os mortos é relativamente simples, o desafio é enterrar as tragédias que sucederam as mortes e fica ainda mais complicado quando estas envolvem crimes e não resolução dos casos. É comum as famílias reivindicarem um ponto final e um pedido de justiça justificando que só terão paz quando a causa da morte for solucionada. A confusão emocional impulsiona expressões de pedidos de socorro para acabar com a dor. As estratégias de enfrentamento vão desde se anestesiar para esquecer e deixar no passado (o famoso “deixa para lá”), empregar o máximo de energia e dedicação ao trabalho, à carreira ou a um projeto novo e até se dedicar a mobilização popular para mudanças importantes na sociedade como leis arcaicas que ignoram a vida humana, a preservação da liberdade individual na escolha de uso ou não de medicamentos entre outras causas geralmente afinizadas com o motivo da morte daquele finado ente querido.

Do ponto de vista externo, as formas de enfrentamento do luto vão parecer desde que a pessoa não tenha tanta habilidade emocional até que ela seja muito forte e guerreira. A realidade é que independente de como o luto está sendo enfrentado (e isso é muito particular), ali está a dor. A dor emocional da perda pega no peito, no coração e o aperto é sentido ano após ano como se a partir daquele momento criasse uma fissura de um antes e um depois. Quando a perda é natural e seguida de um processo de envelhecimento e boas memórias, a dor vai sendo curada com o tempo. No entanto, quando é resultado de tragédias, enquanto todos os aspectos e desenrolares daquilo não são resolvidos, a cada situação que envolveu o desfortúnio que aparece nos anos seguintes, dificulta a finalização do luto e toda a dor volta ao estágio inicial.

Os elementos que ficam após uma morte são: os desdobramentos de crimes impunes ou pessoas desaparecidas, as lembranças dos comportamentos erráticos e escolhas dos envolvidos que o levaram à perda das próprias vidas e até mesmo um inventário familiar podem fazer o turbilhão de emoções aparentemente tratadas voltarem com a mesma intensidade do momento da perda. Enquanto aqueles gatilhos ali existirem, se revive tudo de novo retardando o que muitos descrevem como: não consigo enterrar os mortos. Hoje eu compreendo que não é enterrar os mortos, a dificuldade é enterrar as desgraças que envolveram os mortos. É por esse motivo que o pecúlio geralmente envolve intrigas e brigas entre os que ficaram. Muitos interpretam os conflitos como sendo a briga por poder ou dinheiro como se tratasse de conflitos por necessidades neuróticas quando na verdade ninguém consegue perceber o tamanho da dor que carregam e as emoções que estão marcadas no próprio corpo.

Ninguém consegue expressar que está triste ou com medo se optou por anestesiar as emoções com medicamentos ou com os comportamentos de workaholic ou com liderança de causas para “o bem comum”. Enquanto a energia, o foco e a concentração estão sendo direcionados para tarefas adjacentes ao ambiente interno emocional, a pessoa coloca a dor bem escondidinha procurando se afastar do incômodo que gera e quanto mais ela isola a própria dor emocional, mais anos se passam retardando a superação do luto. O que poderia levar até 3 anos, se estende por 10 anos ou por uma vida inteira. Não é que a pessoa não consiga enterrar os mortos, ela não consegue enterrar o drama envolvido nas mortes.

O caminho para a superação é o enfrentamento direto, face a face das emoções. Encarar a dor possibilita tirar o encobrimento de enorme quantidade de conteúdos complexos que envolveram as decisões das outras pessoas. Enfrentar é estar preparado para abdicar totalmente do controle.

Abrir mão do controle passa pela reflexão de que os parentes, sejam eles os pais, irmãos, sobrinhos, tios ou cônjuges detinham o poder e a autonomia das próprias escolhas. Eles decidiram entrar naquela rua naquele horário, tomar aquelas medicações de modo equivocado e até mesmo seguirem conselhos de outras pessoas que os levaram a findar com a própria vida. Quando abrimos mão do controle - ilusório - sobre o outro, podemos ter a oportunidade de perceber que superar o luto da tragédia é admitir que a pessoa amada exerceu a sua liberdade em viver a vida do modo como gostaria e que enquanto não queremos admitir isso, carregamos em sacrifício os equívocos e decisões que elas haviam construído para elas. Achamos que estamos honrando a memória delas, quando na realidade, estamos destruindo a nós mesmos.

A percepção de que a mágoa, o ódio, a raiva, a omissão, o desamparo, o isolamento, a impotência, a incapacidade eram escolhas daqueles que viveram o drama alivia e cura por termos a oportunidade de entregar de volta para eles toda essa carga que se carrega quando não consegue fazer o enterro das tragédias.

Poder mentalmente dizer a uma mãe, a um pai e a uma irmã: essa raiva e esse ódio nunca foram meus, essa impotência jamais foi minha, abre a possibilidade de você se enxergar como realmente é e perceber que a tua vida está preservada porque você é único e decidiu tomar as tuas decisões com a tua liberdade. Você não tinha espaço mental para a impotência porque lutou por você e pela tua independência, não tinha espaço para ódio e mágoa porque tinha o hábito de se comunicar e se expressar, não tinha espaço para a raiva porque sempre exerceu a compreensão. Fazer essa diferenciação liberta você de carregar pesos que nunca foram teus e você pode agora abrir na tua mente e nas tuas emoções o carinho e a aceitação de si e das pessoas que deveriam ser como eram porque era a escolha delas.

As escolhas individuais podem levar à morte ou à prosperidade e cada um tem o livre-arbítrio de fazer as próprias escolhas. E quando nos cobrimos de coragem e enxergamos a dor da tragédia enfrentando-a, nos libertamos para viver a vida direcionando àqueles imperfeitos que se foram, agora com ternura, amor e carinho. Neste momento o espaço das tuas emoções pode ser considerado curado e a cura ocorre quando é possível entrar em contato com todos os antigos gatilhos emocionais de dor e eles não serem mais capazes de fazer o teu coração pular de aflição ou de raiva ou ira quando você precisava de um abraço, um carinho e acolhimento. Agora você pode saber quando está triste, quando está com medo, quando está confuso porque o enfrentamento das emoções desencarcera estruturas psíquicas que aprisionam o sentir. Se libertar do sacrifício de carregar as desgraças dos finados possibilita a expressão honesta dos teus sentimentos àqueles que convivem com você para também terem a oportunidade de tomar contato com o que está vivo dentro de cada um transformando o conflito em entendimento, as confusões em confissões e a dor em conexão.

 

_________________________________________________________________________

Lorela Casella é Hipnoterapeuta, escritora, publica textos no Jornal Conservador https://t.me/JConservador e canal no telegram https://t.me/lorelacasella  https://t.me/hipnoofficeFoz e toda segunda às 18h30 apresenta o Curso para Bolsominions no Jornal Conservador https://www.facebook.com/OJConservador

Comentários:

Nossas notícias no celular

Receba as notícias do GBRJ ONLINE no seu app favorito de mensagens.

Telegram
Whatsapp
Entrar

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!

Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )